terça-feira, dezembro 06, 2016

João Belchior Marques Goulart morreu há 40 anos, em 6 de dezembro de 1976.

Com apenas 34 anos, João Goulart assume o relevante à época Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, em junho de 1953, no governo Getúlio Vargas, e passa a receber em seu gabinete pessoas humildes e sindicalistas, muitos deles negros. A reação foi imediata: empresários, militares e imprensa passam a orquestrar uma verdadeira campanha para derrubá-lo.

O mandato de Jango como ministro durou apenas 8 meses e mostrou como a proximidade de trabalhadores à esfera do poder politico incomoda uma camada de privilegiados que enxerga o Estado como sua propriedade. Hoje o duro enfrentamento que veio à tona a poucos dias do segundo turno da eleição presidencial demonstra, apesar de nosso considerável amadurecimento democrático das últimas duas décadas, como a sociedade brasileira ainda não equalizou muitas de suas contradições.

A oposição a Jango ainda está à espreita e metamorfoseou-se em defensora do MERCADO como a tábua de salvação de nossos ainda sérios problemas. Em 1953, a principal proposta de Jango previa aumento que dobrava o salário mínimo para 2.400 cruzeiros. A virulenta reação da oposição, principalmente dos quartéis, assustou o governo. Para evitar riscos ao mandato de Getúlio, seu padrinho político, João Goulart deixa o ministério em fevereiro de 54 e declara: “os trabalhadores podem ficar tranquilos, porque prosseguirei ao lado deles, mudando apenas de trincheira”. Em primeiro de maio (Dia do Trabalho) do mesmo ano, três meses antes do suicídio, Getúlio dobra o salário mínimo.

“Os detratores das classes operárias não compreendem que um ministro de Estado possa falar com espontaneidade e estabelecer laços de afeto com criaturas de condição humilde… enquanto uns estão ameaçados e morrem mesmo de fome, outros ganham num ano aquilo que normalmente deveriam ganhar em 50 anos e até mesmo em um século” (JANGO)

Jango alterou as relações entre Estado, classe trabalhadora e empresários. Com isso, os coronéis lançaram manifesto contra ele, os empresários enfureceram-se e a imprensa o atacou. Jango enfrentou a acusação da oposição de maquinar, com a ajuda do presidente argentino na época, Juan Domingo Perón, a implantação da República Sindicalista no Brasil.

O jornalista Carlos Lacerda atacava o governo em seu jornal Tribuna da Imprensa. Em surtos de verdadeira psicose, conclamava o Congresso e a opinião pública a reagir contra “a República Sindicalista, a esdrúxula república jangueira, que fará do Sr. Getúlio Vargas, amorfo e dócil homem de quase 80 anos, mal vividos, um ditador que cochila, enquanto Jango age”.

O barão das comunicações e à época senador, Assis Chateaubriand, subiu à tribuna do Congresso e disparou: “o político rio-grandense não faz outra coisa senão desenvolver a mais cruel e atormentada luta de classes até hoje vista. Nem o Partido Comunista já produziu uma campanha de atrito de classes tão perfeita, com o colorido que o Sr. Goulart tem desenvolvido”.

Em pouco tempo no ministério, Jango conquistou a simpatia dos trabalhadores e passou a mediar inúmeras negociações entre empregados e patrões, o que era inédito na época. Em alguns casos, o ministro até chegava a estimular as mobilizações por melhores condições de trabalho.

Em março de 53, a chamada greve dos 300 mil agitou São Paulo e fez surgir o Pacto de Unidade Intersindical (PUI), organização não alinhada à estrutura sindical pelega, comum à época. Em junho, a greve dos marítimos, inaugurou uma estratégia de negociação entre governo e sindicatos. Ao mesmo tempo, desencadeou o temor de muitos, a começar pelo ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, defensor de uma política de contenção de gastos e crítico de qualquer elevação salarial.

O I Congresso de Previdência Social no Rio de Janeiro reuniu representantes de todo o país e estabeleceu um maior acesso dos sindicatos aos serviços assistenciais da previdência, além de um maior acesso dos sindicalistas (e também dos petebistas, partido de Jango) aos cargos da administração dos inúmeros Institutos de Pensões e Aposentadorias.

A paciência e simplicidade de Goulart davam o tom para longas conversas com diversas lideranças sindicais, empresariais e políticas. Sua jornada estafante de trabalho começava às dez da manhã e terminava no meio da madrugada.

Em outubro de 1953, Jango viajou pelo Norte e Nordeste do país e visitou inúmeros sindicatos. No retorno, 78 sindicatos tinham organizado uma recepção consagradora. Cerca de 4 mil pessoas o esperavam no aeroporto do Rio e o celebraram, Jango teve que subir na capota de um carro para que todos o vissem.

Goulart mostrou indignação com as condições de trabalho daquela região do Brasil e relatou que havia trabalhadores com jornadas de 30 dias por mês, sem um único dia de descanso. Como pagamento, recebiam 10 quilos de farinha ou 15 de carne.

 “Acabo de percorrer vários Estados do Norte e do Nordeste e senti de perto a miséria e as privações dos nossos irmãos daquelas plagas. Ouvi trabalhadores de todas as categorias. Esses trabalhadores que vivem abandonados e sem o mínimo conforto” (Jango)

Apesar dos esforços de Goulart e do governo, a crise econômica e a inflação deflagraram várias greves no segundo semestre de 1953. No congresso, integrantes da bancada da UDN (União Democrática Nacional), partido de oposição, chamada ironicamente de ‘banda de música’, subiam ao palanque inúmeras vezes para atacar o governo de Getúlio Vargas e em particular, Jango. Não resta dúvida de que a atuação de Jango no Ministério aproximou setores reacionários das Forças Armadas à UDN.

O trabalho de Jango no governo colaborou para transformar Getúlio Vargas do ditador do Estado Novo em um líder de massas. Ambos se aproximaram quando Getúlio, após sofrer o golpe de 45, vivia na Estância Itu, a 80 quilômetros de São Borja (RS), terra natal de Getúlio e João Goulart. Isolado, o ex-presidente aproximou-se do jovem político e empresário local, que era amigo do filho de seu filho, Maneco.

Goulart presenteava Getúlio com charutos e ambos conversavam por horas. Nessas conversas, Jango já demonstrava sua preocupação em diminuir a desigualdade social brasileira e a necessidade da reforma agrária. Entre 1947 e 1950, Jango foi um dos mais relevantes articuladores do caminho de retorno de Getúlio à presidência.

Incomensurável a angústia de Jango nos 12 anos de exílio (1964-1976) após o golpe civil-militar de 1964. Nesse período, o presidente deposto flertou com a depressão e manifestava para pessoas mais próximas seu imenso desejo de retornar ao Brasil. Morto em 1976, imagino Jango com o inseparável cigarro entre os dedos alertando pacientemente pela união das forças progressistas através do diálogo nesse embate atual pela presidência do país.

Este texto foi inspirado pela leitura do brilhante livro ’João Goulart, uma biografia’, do historiador e professor da UFF (Universidade Federal Fluminense), Jorge Ferreira, fruto de mais de dez anos de sua pesquisa sobre Jango.





Texto de Fernando do Valle, blogueiro e jornalista, publicado originalmente no ZonaCurva (http://zonacurva.com.br/como-ministro-de-getulio-jango-revelou-entranhas-brasil/)


sexta-feira, novembro 25, 2016

A Revolta dos Desinformados

A 102 anos a desinformação do povo fazia mais uma vítima (injustamente): Oswaldo Cruz


Em 1904 uma das principais mobilizações urbanas do Brasil acontece na cidade do Rio de Janeiro. Motivada pela desinformação (isso parece até atual) a população carioca rebela-se contra a vacinação obrigatória contra a varíola, doença que, naquele ano, matou 3,5 mil pessoas. Embora fosse uma importante política pública para a saúde, o desconhecimento da população sobre o que era a vacina e seus efeitos, fez com que Oswaldo Cruz, idealizados da ideia fosse vaiado onde quer que estivesse.

Por sua vez, a imprensa da época, Correio da Manhã e Jornal do Brasil, em vez de "informar" e esclarecerem a população, passam  combater a medida.

Com a situação fora do controle, declarou se estado de sítio na cidade. A rebelião só foi contida após quase 30 dias, deixando dezenas de mortos e feridos. Outras centenas de participantes do motim foram deportados para o estado do Acre. Após controlar a revolta, a vacinação foi reiniciada e em 1906, dois anos depois da revolta, foram registradas  9 mortes decorrentes da varíola. Em 1910 o número caiu para 1 morte.

quarta-feira, novembro 16, 2016

Contradição, você vê por aqui!


Custo de um preso, Darcy Ribeiro e penitenciárias vazias na Holanda

Nos últimos dias me chamaram a atenção 3 notícias/publicações que tratam, de maneira diferente, do mesmo assunto: PRESÍDIOS.

Primeiro a fala da Ministrado Supremo, Carmen Lúcia, que aponta que um preso custa treze vezes mais que um estudante (link aqui). Depois um post, que vi na página "Estúdio da Legalidade", que traz uma fala de Darcy Ribeiro, que já em 1982 disse que "se os governadores não construíssem escolas, em 20 anos faltaria dinheiro para construir presídios" (link aqui). Por fim, a matéria abaixo, que trata da "crise penitenciária" holandesa, onde sobram celas e faltam condenados (link aqui).

Agora, o que chama mais a atenção é que as 3 notícias são interligadas, sendo que, lendo a respeito da questão holandesa, encontramos de maneira fácil as ações realizadas lá, que poderiam ser utilizadas para melhorar a situação aqui. A BBC mostra quais ações levaram a isso (ou seja, dá a solução para quem quiser copiar):

1 - Investimento em reabilitação (ensino de uma profissão, por exemplo);

2 - Foco no combate ao crime. (tiraram o foco das drogas e concentraram esforços no combate ao tráfico de pessoas e ao terrorismo); e

3 - trocar encarceramento por serviços comunitários, multas e controle com tornozeleiras eletrônicas no caso de crimes mais brandos.

sexta-feira, novembro 11, 2016

Qual foi o primeiro Presidente vaiado no Brasil?


Para ir direto ao assunto, a resposta é Campos Sales, que em 1900, quando o Brasil tinha 17,5 milhões de habitantes (e de cada dez, nove eram analfabetos, em sua maioria negros), assumiu a presidência sendo o 2º Presidente eleito pelo voto direto no Brasil. Oligarca, cafeicultor, proclama nossa vocação agrícola e o "abaixo a industrialização" (acredite se quiser!) apertando os cintos e criando impostos (prática antiga, viu desinformado).

Assume e coloca "paus-mandados" nos Estados,, fundando a República Velha, estruturada sobre o poder local dos "coronéis", donos dos currais eleitorais. No final, deixa o Catete vaiado.

segunda-feira, novembro 07, 2016

Artur da Costa e Silva nasceu em que ano, 1889 ou 1902?

Artur da Costa e Silva foi o segundo presidente militar, após o Golpe de 1964. Seu governo iniciou a fase mais dura e brutal do regime ditatorial militar, à qual o general Emílio Garrastazu Médici, seu sucessor, deu continuidade.

Ao final de 1963, participou ativamente da conspiração que derrubou o Presidente da República João Goulart. 

Como ministro da Guerra de Castelo Branco, tomou a posição de defensor dos interesses da chamada linha dura, vertente ultradireita das Forças Armadas, e, com o AI-2, que transferiu a eleição do novo presidente para o Congresso Nacional, impôs-se como candidato à sucessão de Castelo Branco, alijando os militares castelistas – como o futuro presidente Ernesto Geisel e seu futuro auxiliar Golbery do Couto e Silva – de postos de responsabilidade.

Sob o governo Costa e Silva foi promulgado o AI-5, que lhe deu poderes para fechar o Congresso Nacional, cassar políticos e institucionalizar a repressão, visto que no seu governo houve um aumento significativo das atividades subversivas. Essa repressão ocorreu por meios legais e ilegais, como torturas contra militantes de esquerda.

Sobre a questão inicial, a data de nascimento de Costa e Silva, ele nasceu em 03 de outubro de 1989, em Taquari, RS, porém a certidão foi adulterada, pondo o nascimento e 1902, para que ele se enquadra-se na idade limite para entrar no Colégio Militar. Na imagem, podemos ver as os diferentes anos sendo citados em páginas da internet.

sexta-feira, novembro 04, 2016

Paulo Freire e a Ditadura Militar

Paulo Freire seja talvez o brasileiro mais homenageado em todo o mundo. Títulos de Doutor Honoris Causa são mais de 50, de instituições renomadas como, por exemplo, Cambridge, Harvard, Oxford. Em Estocolmo, capital da Suécia, país onde brasileiros sonham viver após reportagens da TV brasileira, sua escultura figura ao lado do poeta chileno Pablo Neruda, do revolucionário chinês Mao Tsé-Tung, da ativista americana Angela Davis e de outras figuras universais, que lutaram contra a opressão.

Em 1964, levado para o quartel da 2[ Companhia de Guardas, é questionado pelo coronel Ibiapina, besta-fera, uma dos mais algozes e cruéis, se "seu método é semelhante ao de Stalin, Hitler, Perón e Mussolini?".

Já preso,
 no Recife, no 14º Batalhão, por seu método de alfabetização ter sido considerado subversivo, recebe um pedido inusitado do capitão do Batalhão: aplicar seu método aos recrutas, pois haviam muitos analfabetos entre eles. Segundo o capitão, esta seria uma maneira de Paulo Feire "prestar um serviço aos pais", enquanto estivesse detido ali. A contradição: Freire estava ali, justamento pelo método de alfabetização. 

quinta-feira, novembro 03, 2016

Generalizações

Toda generalização é burra. Pena que ela (generalização) aconteça diariamente, nos mais variados meios...