Com apenas 34 anos, João Goulart assume o relevante à época
Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, em junho de 1953, no governo
Getúlio Vargas, e passa a receber em seu gabinete pessoas humildes e
sindicalistas, muitos deles negros. A reação foi imediata: empresários,
militares e imprensa passam a orquestrar uma verdadeira campanha para
derrubá-lo.
O mandato de Jango como ministro durou apenas 8 meses e
mostrou como a proximidade de trabalhadores à esfera do poder politico incomoda
uma camada de privilegiados que enxerga o Estado como sua propriedade. Hoje o
duro enfrentamento que veio à tona a poucos dias do segundo turno da eleição
presidencial demonstra, apesar de nosso considerável amadurecimento democrático
das últimas duas décadas, como a sociedade brasileira ainda não equalizou
muitas de suas contradições.
A oposição a Jango ainda está à espreita e metamorfoseou-se
em defensora do MERCADO como a tábua de salvação de nossos ainda sérios
problemas. Em 1953, a principal proposta de Jango previa aumento que dobrava
o salário mínimo para 2.400 cruzeiros. A virulenta reação da oposição,
principalmente dos quartéis, assustou o governo. Para evitar riscos ao mandato
de Getúlio, seu padrinho político, João Goulart deixa o ministério em fevereiro
de 54 e declara: “os trabalhadores podem ficar tranquilos, porque prosseguirei
ao lado deles, mudando apenas de trincheira”. Em primeiro de maio (Dia do
Trabalho) do mesmo ano, três meses antes do suicídio, Getúlio dobra o salário
mínimo.
“Os detratores das
classes operárias não compreendem que um ministro de Estado possa falar com
espontaneidade e estabelecer laços de afeto com criaturas de condição humilde…
enquanto uns estão ameaçados e morrem mesmo de fome, outros ganham num ano
aquilo que normalmente deveriam ganhar em 50 anos e até mesmo em um século”
(JANGO)
Jango alterou as relações entre Estado, classe trabalhadora
e empresários. Com isso, os coronéis lançaram manifesto contra ele, os
empresários enfureceram-se e a imprensa o atacou. Jango enfrentou a acusação da
oposição de maquinar, com a ajuda do presidente argentino na época, Juan Domingo
Perón, a implantação da República Sindicalista no Brasil.
O jornalista Carlos Lacerda atacava o governo em seu jornal Tribuna
da Imprensa. Em surtos de verdadeira psicose, conclamava o Congresso e a
opinião pública a reagir contra “a República Sindicalista, a esdrúxula
república jangueira, que fará do Sr. Getúlio Vargas, amorfo e dócil homem de
quase 80 anos, mal vividos, um ditador que cochila, enquanto Jango age”.
O barão das comunicações e à época senador, Assis
Chateaubriand, subiu à tribuna do Congresso e disparou: “o político
rio-grandense não faz outra coisa senão desenvolver a mais cruel e atormentada luta
de classes até hoje vista. Nem o Partido Comunista já produziu uma
campanha de atrito de classes tão perfeita, com o colorido que o Sr. Goulart tem
desenvolvido”.
Em pouco tempo no ministério, Jango conquistou a simpatia
dos trabalhadores e passou a mediar inúmeras negociações entre empregados e
patrões, o que era inédito na época. Em alguns casos, o ministro até chegava a
estimular as mobilizações por melhores condições de trabalho.
Em março de 53, a chamada greve dos 300 mil agitou São Paulo
e fez surgir o Pacto de Unidade Intersindical (PUI), organização não alinhada à
estrutura sindical pelega, comum à época. Em junho, a greve dos marítimos,
inaugurou uma estratégia de negociação entre governo e sindicatos. Ao mesmo
tempo, desencadeou o temor de muitos, a começar pelo ministro da Fazenda,
Oswaldo Aranha, defensor de uma política de contenção de gastos e crítico de
qualquer elevação salarial.
O I Congresso de Previdência Social no Rio de Janeiro reuniu
representantes de todo o país e estabeleceu um maior acesso dos sindicatos aos
serviços assistenciais da previdência, além de um maior acesso dos
sindicalistas (e também dos petebistas, partido de Jango) aos cargos da
administração dos inúmeros Institutos de Pensões e Aposentadorias.
A paciência e simplicidade de Goulart davam o tom para
longas conversas com diversas lideranças sindicais, empresariais e políticas.
Sua jornada estafante de trabalho começava às dez da manhã e terminava no meio
da madrugada.
Em outubro de 1953, Jango viajou pelo Norte e Nordeste do
país e visitou inúmeros sindicatos. No retorno, 78 sindicatos tinham organizado
uma recepção consagradora. Cerca de 4 mil pessoas o esperavam no aeroporto do
Rio e o celebraram, Jango teve que subir na capota de um carro para que todos o
vissem.
Goulart mostrou indignação com as condições de trabalho
daquela região do Brasil e relatou que havia trabalhadores com jornadas de 30
dias por mês, sem um único dia de descanso. Como pagamento, recebiam 10 quilos
de farinha ou 15 de carne.
“Acabo de percorrer
vários Estados do Norte e do Nordeste e senti de perto a miséria e as privações
dos nossos irmãos daquelas plagas. Ouvi trabalhadores de todas as categorias.
Esses trabalhadores que vivem abandonados e sem o mínimo conforto” (Jango)
O trabalho de Jango no governo colaborou para transformar
Getúlio Vargas do ditador do Estado Novo em um líder de massas. Ambos se
aproximaram quando Getúlio, após sofrer o golpe de 45, vivia na Estância Itu, a
80 quilômetros de São Borja (RS), terra natal de Getúlio e João Goulart.
Isolado, o ex-presidente aproximou-se do jovem político e empresário local, que
era amigo do filho de seu filho, Maneco.
Goulart presenteava Getúlio com charutos e ambos conversavam
por horas. Nessas conversas, Jango já demonstrava sua preocupação em diminuir
a desigualdade social brasileira e a necessidade da reforma agrária. Entre 1947
e 1950, Jango foi um dos mais relevantes articuladores do caminho de retorno de
Getúlio à presidência.
Incomensurável a angústia de Jango nos 12 anos de exílio
(1964-1976) após o golpe civil-militar de 1964. Nesse período, o presidente
deposto flertou com a depressão e manifestava para pessoas mais próximas seu
imenso desejo de retornar ao Brasil. Morto em 1976, imagino Jango com o
inseparável cigarro entre os dedos alertando pacientemente pela união das
forças progressistas através do diálogo nesse embate atual pela presidência do
país.
Este texto foi inspirado pela leitura do brilhante livro
’João Goulart, uma biografia’, do historiador e professor da UFF (Universidade
Federal Fluminense), Jorge Ferreira, fruto de mais de dez anos de sua pesquisa
sobre Jango.
Texto de Fernando do Valle, blogueiro e jornalista, publicado originalmente no ZonaCurva (http://zonacurva.com.br/como-ministro-de-getulio-jango-revelou-entranhas-brasil/)