segunda-feira, agosto 02, 2021

O que é o “Espírito Olímpico”?

Durante os Jogos de Tokyo, muito se tem falado das reações de diversos atletas, como Medina (surf), Djokovic (tênis) e Biles (ginástica). Apesar de ser fácil opinar, acredito que somente atletas sabem de fato, o que outro pode estar passando.

O lema olímpico - "mais rápido, mais alto, mais forte" é de 1894, porém, vamos falar sobree os Jogos de 1936, quando no salto com vara – que tinha regras diferentes das atuais – um estadunidense sagrou-se campeão, deixando um compatriota e dois japoneses disputando prata e bronze. Na continuidade das disputas, somente os dois japoneses avançaram, continuando empatados.


A organização decidiu que eles fariam um salto extra, para desempate, porém, os atletas, decidiram ficar empatados e, como não havia duas medalhas iguais, ficou a critério do Japão a decisão, que apontou, por análise de tentativas e erros, as colocações.

Mas os atletas – atores principais do espetáculo – não concordaram e, retornando a terra natal, decidiram cortar ambas as medalhas e forjar duas novas, metade de prata e metade de bronze.

Já em 2004, em Atenas, o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, liderava a prova, no 36km – com o ouro encaminhado, quando um ex-padre irlandês, Cornelius Horan, furou a segurança, entrou na pista e agarrou o brasileiro, jogando-o para o local designado aos torcedores. Vanderlei perdeu a vantagem de quase 1 minuto que tinha e, com esforço, chegou ao Estádio Olímpico na terceira posição, com um largo sorriso no rosto, para surpresa geral e aplausos efusivos da plateia, que viu Vanderlei cruzou a linha de chegada comemorando e fazendo “aviãozinho”, uma de suas marcas registradas.

Pelo espírito esportivo, o COI entregou a honraria a Vanderlei a única Medalha Pierre de Coubertin do Brasil, honraria que somente 18 atletas no mundo possuem, por demonstraram em suas ações o grau máximo de espírito olímpico.

Por fim, no Rio, em 2016, em um choque acidental, com dois terços da prova feminina dos 5 mil metros percorridos, as atletas Nikki Hamblin e Abbey D"Agostino foram parar ao chão. Ao perceber que a rival não levantou Abbey ajudou-a a recomeçar a corrida, dizendo “"Levante-se. Temos que terminar isso". Hamblin, chorando, recomeçou a correr quando D"Agostino cedeu e caiu, queixando-se do joelho.

Aí foi a vez de Hamblin parar e ajudar. Ambas terminaram a prova, nas duas últimas colocações, porém, por decisão da organização, foram “classificadas” para final do evento como reconhecimento por seus espíritos olímpicos.

No final sempre haverá os medalhistas, mas o que fica marcado para a história e que toca as pessoas são os gestos inesperados de ajuda, amizade e superação. Este é o verdadeiro espírito olímpico!

domingo, julho 18, 2021

Cuba, uma ilha caribenha

Nos últimos dias Cuba esta nos noticiários, seja pela manifestação dos que pedem o “fim da ditadura”, seja pelos que “apoiam a revolução”. Pensei, durante toda semana, em escreve sobre o assunto, mas minha maior preocupação era (e ainda é!) em falar de um tema que conheço por meras leituras e opiniões, me sentindo assim sem crédito para uma real avaliação.

Decidido a escrever, busquei rever alguns livros sobre o tema, assim como materiais de cursos realizados. Dentre todas as consultas, Frei Betto foi quem mais me chamou a atenção, pois a mais de 40 anos frequenta a ilha caribenha com certa frequência, além de ter atuado, por exemplo, na retomada do diálogo entre bispos católicos e o governo de Cuba, e trabalhar, como contratado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), na implementação do Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional em Cuba. 

Existem muitos questionamentos à Revolução, bem como a população tem enfrentado grandes dificuldades, sendo a maior crítica a “ausência” da democracia. Por outro lado, no país não há miséria, mendigos, crianças abandonadas ou famílias debaixo de viadutos. Como bem colocou Frei Betto em um de seus trabalhos, 

(...) se você é rico no Brasil e for viver em Cuba conhecerá o inferno. Ficará impossibilitado de trocar de carro todo ano, comprar roupas de grife, viajar com frequência para férias no exterior. E, sobretudo, não poderá explorar o trabalho alheio, manter seus empregados na ignorância, “orgulhar-se” da Maria, sua cozinheira há 20 anos, e a quem você nega acesso à casa própria, à escolaridade e ao plano de saúde.

Se você é classe média, prepare-se para conhecer o purgatório. Embora Cuba já não seja uma sociedade estatizada, a burocracia perdura, há que ter paciência nas filas dos mercados, muitos produtos disponíveis neste mês podem não ser encontrados no próximo devido às inconstâncias das importações.

Se você, porém, é assalariado, pobre, sem-teto ou sem-terra, prepare-se para conhecer o paraíso. A Revolução assegurará seus três direitos humanos fundamentais: alimentação, saúde e educação, além de moradia e trabalho. Pode ser que você tenha muito apetite por não comer o que gosta, mas jamais terá fome. Sua família terá escolaridade e assistência de saúde, incluindo cirurgias complexas, totalmente gratuitas, como dever do Estado e direito do cidadão.

Sobre a Democracia - aquela nascida na Grécia, onde poucos mil habitantes possuíam milhares de escravos - em Cuba, o país tem seu sistema eleitoral, diga-se de passagem, similar ao da China e, sendo este um dos motivos do embarco, porque não “embargar” a potência asiática? E porque não levar a democracia ao Haiti? A democracia não é assegurada pela rotatividade eleitoral, mas sim pela partilha econômica, do contrário Brasil e a Índia, países democráticos, não teriam miséria, pobreza, exclusão, opressão e sofrimento.

Aos que não compreendem como milhares de cubanos defendem a Revolução, é preciso conhecimento histórico de Cuba pré-1959 para compreender como Fidel teve apoio popular, na época em que o país era conhecido como o “prostíbulo do Caribe”. Aproveite e veja como a cidade de Las Vegas “cresceu” após os estadunidenses perdem a ilha caribenha.

Creio que o embargo, situação única no mundo (só existe ditatura em Cuba?) se deva, primeiramente, ao inconformismo (tipo “dor de corno”) dos EUA em “perder” a ilha, primeiro aos revolucionários, depois para URSS. É inadmissível para uma superpotência sofrer os revezes que sofreu. Lembremos que 1992 em diante, a Assembleia Geral da ONU vota esmagadoramente pelo fim desse bloqueio.

Cuba é uma ilha com poucos recursos. O bloqueio sempre lhe sufocou, o que se agravou com o governo Trump (que implementou 43 novas medidas) e a pandemia, que zerou uma das principais fontes de recursos do país, o turismo. Segundo dados estatísticos, Cuba perdeu entre abril de 2019 e março de 2020 5 bilhões de dólares em comércio potencial devido ao bloqueio; 144 bilhões de dólares nas últimas seis décadas.

Por fim, tenho uma teoria que, se os EUA realmente desejam “acabar” com a Revolução, deveriam simplesmente findar o bloqueio e deixar que o capitalismo destrua o que a ilha possui, ou alguém tem dúvida que o sistema financeiro teria esse poder?

terça-feira, julho 13, 2021

Patriotismo e seleção brasileira

No último dia 9 de julho, dia de comemoração da tentativa e golpe paulista de 1932, percebi que não tenho mais trabalhos escolares/universitários para produzir, portanto, para estimular a escrita, resolvi voltar a escrever sobre assuntos cotidianos.

Para iniciar, nada melhor que a final da Copa América, entre Brasil e Argentina, no Maracanã, vencida pelos hermanos.

Vi e ouvi muitos comentários e indagações pelo fato de brasileiros não terem torcido pela seleção de seu país. Eu mesmo torci pela Argentina, o que, registra-se, é bem diferente de torcer “contra” o Brasil.
 
No meu caso, sempre gostei do futebol argentino por diversos motivos, que vão desde esquemas táticos, forma viril de jogo (futebol não é ballet) até o estilo de jogadores como Fernando Redondo ou Gabriel Batistuta, com suas vastas cabeleiras. Somando-se a isso meu descontentamento com a seleção brasileira nas últimas duas décadas, a escolha foi simples (lembro-me da Copa de 90, mas sem sentimentos; 1994 foi o auge entre eu e a seleção; 1998, a decepção da derrota – sabendo que ela aconteceu em campo, sem teorias da conspiração (!); 2002 a decepção pela não convocação de Romário e o início do distanciamento; 2006 e a cena “ridícula” de quarteto/quinteto mágico; 2010 um pouco de simpatia, pelo plantel mais cascudo; 2014 sem sentimento algum, apenas aproveitando os dias de jogos para divertir-se com os amigos; 2018 idem a 2014).

Resolvi então colocar-me na "balança" me tentar avaliar qual é a relação entre eu torcer pela seleção e poder ser categorizado como “patriota”?

Segundo o dicionário, patriota é “aquele que ama a pátria e a ela presta serviços”. Já pátria tem, dentre outros significados, “país em que se nasce e ao qual se pertence como cidadão”; “parte do país em que alguém nasceu; terra natal”; “a terra paterna”; “lugar considerado como o melhor.”

Lendo as definições acima, ficou fácil eu me considerar patriota (mesmo sem torcer pela seleção), afinal de contas eu gosto muito do Brasil, como país (diferente de muitos torcedores verde-amarelos, nunca me passou pela cabeça deixar país, pois acredito que ele é um dos melhores lugares do mundo para se viver).

Pesando um pouco mais, e numa relação com “prestar serviços”, creio que, por exemplo, ter saído candidato a vereador no mandato coletivo da Educação, nas eleições de 2020, sem ter nada a ganhar (vencendo, poderia ter um rendimento financeiro melhor, porém, quem me conhece, sabe que mesmo sendo um profissional competente, sou favorável ao ócio e não tenho apreço pelo trabalho e por ganhos financeiros) e muito a perder (muito trabalho na campanha, desgaste interpessoal – inclusive em casa, estigmatização no trabalho) parece me colocar mais próximo do patriotismo do que torcer por a seleção que representa uma instituição privada (CBF), que ganha milhões de dólares, enquanto nossos clubes nacionais sofrem financeiramente, com presidentes historicamente envolvidos em escândalos financeiros e até crimes sexuais e que tem, como ídolo máximo, um jogador que é condenado por sonegação de imposto e acusado de crimes sexuais.
 
Pensando ainda mais, chega ser cômico que o motivo de aceitar a candidatura tenha sido poder representar e, minimante, dar voz, a muitos que pensam que usar a camisa da seleção,  e torcer por Neymar Jr, seja uma ação patriótica. 

Por fim, aos jogadores que parecem querer dividir a derrota em capo com os torcedores contrários), fica a dica: se o número de torcedores favoráveis à seleção influenciasse no resultado, a seleção chinesa era campeã do mundo.

quinta-feira, novembro 30, 2017

Produtividade no Trabalho

Recebi um email de um amigo a uns dias atrás falando de como é trabalhar no Google; neste email tinham também algumas fotos da sede do Google nos EUA, que foi eleito o melhor lugar para se trabalhar nos EUA. Ou melhor dizer, o melhor lugar para se VIVER nos EUA.

Comida não falta. Sergey Brin, fundador da Google, acredita que o funcionário da empresa não pode trabalhar distante mais que 150 metros de uma boa cafeteria repleta de comes e bebes saudáveis. Dito e feito.

Sujou a roupa?

Leva para o escritório!

A lavanderia da Google fica aberta 24 horas.

Tá precisando trocar o óleo do carro? Enquanto trabalha, a oficina da Google dá um tapa no carango. Se estiver sujo, o lava carros da Google dá o toque final.

O verão tá chegando e você quer entrar no shape? Dá uma passada na big huge academia de malhação da Google. Tá faltando motivação para malhar? A Google sub sidia o personal trainer.

Tá estressado? Passa na sala de massagem do escritório. Já domina o inglês? Inscreva-se nas aulas de Mandarin, Japonês, Espanhol e Francês. Chegou o dia de comemorar o aniversário de casamento com a patroa? A equipe de concierge da Google faz a reserva para o jantar no melhor restaurante da cidade.

Quer comprar um carro novo? Se escolher um carro híbrido, a Google te dá US$ 5 mil doletas para comprar o carro. Você conhece algum amigo que se encaixa naquela posição recém aberta na Google? Se a companhia fechar negócio com o cidadão, o googleniano leva 2 mil dólares para casa. Nasceu o filhote? PARABÉNS! A Google te dá 500 doláres para bancar os gastos extras com o pimpolho nas primeiras quatro semanas. Sente-se sozinho e deseja fazer novas amizades? Compareça as festas TGIF (Thanks God Its Friday!) onde o networking rola solto.

Tá cansado de dirigir até o escritório da Google?

Sem problemas, o ônibus da empresa pega você em uma das dezenas de paradas pela cidade.


Ops, não viu nenhuma novidade nesse benefício?

E se eu te disser que todos os ônibus da Google são equipados com rede sem fio wireless para você se conectar a web no caminho para o escritório? Melhorou?

E tem mais, cada um dos 10 mil funcionários da Google tem direito a:

   * Ficou doente, fica em casa. O funcionário tem “sick days unlimited”.


   * Passeio anual grátis em estacão de ski, todas as despesas pagas.


   * Fantástica Série de Palestras semanais com FAMOSAS e RELEVANTES personalidades.


   * Comida grátis.


   * Equipe grátis de médicos residentes.


   * Piscina, quadra de vôlei, paredes para escalar, scooters e mídia centers.


   * 20% do tempo de trabalho livre para se dedicar a projetos FORA DO BARALHO.

A Google oferece tantos benefícios aos googlenianos, que o difícil não é trazer o funcionário para o trabalho, mas mandá-lo embora para casa. A turma simplesmente não tem motivos para ir embora!



PRODUTIVIDADE – Essa é a palavra-chave para qualquer empresa, é basicamente o que todas as pessoas procuram obter de seus colaboradores. Porém a ideia daquele chefe mandão, sentado atrás de uma mesa em seu escritório, já é uma imagem ultrapassada.

Em grandes empresas, como a Google, a equipe é coordenada por si só, e os programadores não recebem ordens e nem precisam cumprir horários, precisam apenas entregar os projetos dentro do prazo. Para aprimorar as idéias de seus funcionários, a Google investe em ambiente de trabalho diferenciado, o mais familiar e aconchegante possível. Confira abaixo algumas fotos de uma das agências do Google:


sexta-feira, novembro 24, 2017

Por que duvidam da Evolução?

Será que é tão ofensivo ter um ancestral em comum com outros primatas, como os chimpanzés?

Ao menos nos EUA, a evidência é indiscutível. Em uma pesquisa do grupo Gallup na véspera do aniversário de 200 anos do nascimento de Charles Darwin, no dia 12 de fevereiro de 2009, apenas 39% dos americanos responderam que "acreditam na teoria da evolução".

Não há dados semelhantes no Brasil, mas imagino que os números sejam semelhantes ou piores. 

A mesma pesquisa relaciona o resultado com o nível educacional dos respondentes. Apenas 21% das pessoas com ensino médio completo ou menos acreditam na evolução. O número sobe para 53% nos graduados e 74% em quem tem pós-graduação.

Outra variável investigada foi a relação do resultado com frequência à igreja. Dos que acreditam em evolução, 24% vão a igreja semanalmente, 30% ao menos uma vez por mês e 55% nunca vão. Quanto mais crente, maior a desconfiança em relação à teoria de Darwin.

Por outro lado, a evidência em favor da evolução também é indiscutível. Ela está no registro fóssil, datado usando a emissão de partículas de núcleos atômicos radioativos. Rochas de erupções vulcânicas (ígneas) enterradas perto de um fóssil contêm material radioativo. O mais comum é o urânio-235, que decai em chumbo-207.

Analisando a razão entre o urânio-235 e o chumbo-207 numa amostra de rocha ígnea e sabendo a frequência com que o urânio emite partículas (em 704 milhões de anos, a quantidade de urânio numa amostra cai pela metade), cientistas obtêm uma medida bastante precisa da idade do fóssil. Por exemplo, os dinossauros desapareceram há 65 milhões de anos.

A evidência em favor da evolução aparece também na resistência que bactérias podem desenvolver contra antibióticos. Quanto mais se usam antibióticos, maior a chance de que mutações gerem bactérias resistentes. Esse tipo de adaptação por pressão seletiva pode ser investigado no laboratório, sujeitando populações de bactérias a certas drogas e monitorando modificações no seu código genético.

Posto isso, pergunto-me por que a evolução causa tanto problema para tanta gente. Será que é tão ofensivo assim termos tido um ancestral em comum com outros primatas, como os chimpanzés?

A nossa descendência é ainda muito mais dramática: se formos mais para o passado, todos os animais que existem descenderam de um único ancestral, o Último Ancestral Universal Comum (na sigla Luca, em inglês), que provavelmente era um ser unicelular.

Essa desconfiança do conhecimento científico é muito estranha, dada a nossa dependência dele no século 21. (De onde vêm os antibióticos e iPhones?) O problema parece estar ligado ao Deus-dos-Vãos, a noção de que quanto mais aprendemos sobre o mundo, menos Deus é necessário. Os que interpretam a Bíblia literalmente veem nisso uma perda de rumo. Se Deus não criou Adão e Eva e se não nos tornamos mortais após a "queda do Paraíso", como lidar com a morte?

Uma teologia que insiste em contrapor a fé ao conhecimento científico só leva a um maior obscurantismo. Mesmo que não acredite em Deus, imagino que existam outras formas de encontrar Deus ou outros caminhos em busca de uma espiritualidade maior na vida.


MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita"

terça-feira, novembro 21, 2017

Decepção ou Desilusão

Relacionamentos, sejam do vínculo que for, são sempre difíceis não só em seu fim, mas também durante crises em  seu caminho. Uma amizade que se esfacela, um namoro que esfria, um casamento que não tem mais razão de ser. Palavras de ofensa, desconfiança, sentimento de culpa. Porém, creio eu que há uma diferença não tão sutil entre se desiludir e se decepcionar. Quando se trata de sentimentos, todo cuidado é pouco.

A desilusão é algo mais difícil de se evitar. Se duas pessoas, ou pelo menos uma delas, não preza mais o sentimento da outra, não tem jeito, acabou. Mas não é uma escolha. É difícil sim controlar os sentimentos, simplesmente não optamos a quem vamos dedicar nosso amor. Convenhamos que, se fosse possível, não teríamos tantas experiências desastrosas, principalmente com amizades, onde a aproximação é mais fácil, sem maiores laços, porém causam a mesma dor. 

O fim é sempre doloroso, e a desilusão, inevitável. Você jurava que aquela pessoa seria sua amiga pra sempre, mas o tempo tratou de afastá-la. Desilusão. A paixão que veio avassaladora e esfriou com a mesma intensidade. Desilusão, de novo. O sentimento pela vitória, tanto tempo e amor dedicado por uma agremiação esportiva que no final te traz vergonha. Desilusão, mais uma vez. E assim nos levantamos e continuamos a caminhar. A desilusão não nos impede de amarmos novamente com intensidade, ou de começarmos uma nova amizade cheios de esperança.

No dicionário, desilusão é "uma decepção ou desencantamento decorrente de uma experiência negativa profunda; é ato de desiludir-se, desenganar-se, o que pressupõe que nos enganamos sobre algo ou alguém, que em um momento qualquer, acreditamos."

Por que tanta teoria sobre desiludir-se? Porque, pensando no assunto, me dei conta de que há algo muito pior do que um coração partido, como me referi no início do texto. Se sentir enganado, usado, traído... uma desilusão não causa tudo isso. A palavra responsável por todas as outras que enumerei é decepção

Muito pior do que um namoro que não deu certo por incompatibilidade de personalidades é um relacionamento que acabou por conta de uma traição. Deve ser horrível perceber o quanto você não conhecia a pessoa que estava ao seu lado, quanto tudo aquilo que parecia ser verdadeiro, era uma farsa. Deve doer muito, causar uma certa revolta, alguma raiva. Ninguém quer ouvir que foi usado ou traído.

A decepção causa desconfiança, descrédito. Voltar a entregar os nossos sentimentos à outra pessoa não é tarefa fácil. Voltar a acreditar em uma amizade torna-se um martírio.  Acabamos afastando as pessoas, até mesmo aquelas legais, verdadeiras. 

E a pior das decepções é quando se decepciona consigo mesmo. Não há a quem culpar, em quem jogar as palavras, nem a quem descarregar. Tudo é contra você mesmo. Auto-decepção. A mágoa fica em forma de cicatriz.



PENSAMENTO

Blessed is he who expects nothing, for he shall never be disappointed. (Bem-aventurado é aquele que nada espera, pois ele nunca deve ser desapontado.)

- carta de 6 de outubro de 1727, in: "The works of Alexander Pope. With his last corrections, additions, and improvements. Publ. by mr. Warburton. With occasional notes." - Página 126, Alexander Pope - 1751

segunda-feira, novembro 13, 2017

Computadora

Conversando com um amigo boliviano muito inteligente, levantei a seguinte questão:
Por que "computador" em espanhol é feminino, ou seja, vira "computadora"?
Ao que ele me respondeu categoricamente:
É porque está comprovado que os computadores são do sexo feminino  mesmo, sem qualquer sombra de dúvidas.
Aí eu pedi:
- Cite uma razão. Ele me deu várias...

Eis aqui algumas razões que atestam, cientificamente, que os computador são fêmeas:

1) Você não consegue conversar com ele.

2) Ninguém, além do criador, é capaz de entender a sua lógica interna.

3) Mesmo os menores errinhos que você comete são guardados na memória para futura referência (esta é fatal!).

4) A linguagem nativa usada na comunicação entre computadores é incompreensível para qualquer outra espécie.

5) A mensagem bad command or file name é tão informativa quanto, digamos,"se você não sabe por que estou com raiva, não sou eu quem vai explicar!!!

6) Assim que você opta por um computador, qualquer que seja, logo você estará gastando tudo o que ganha com acessórios para ele.

7) O computador processa informações com muita rapidez , mas não pensa.

8) O computador do seu amigo, vizinho, ou do seu escritório sempre é melhor do que que você tem em casa.

9) O computador não faz absolutamente nada sozinho, a não ser que você dê o comando.

10) O computador trava na melhor hora.

11) Assim que voce adquire um computador, ja tem outro melhor rodando por ai.

Será que alguém ainda tem alguma dúvida que o computador é de sexo feminino????

sexta-feira, novembro 10, 2017

Pré-Conceito

Preconceito (prefixo pré- e conceito) é um "juízo" preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude "discriminatória" perante pessoas, lugares ou tradições considerados diferentes ou "estranhos". Costuma indicar desconhecimento pejorativo de alguém, ou de um grupo social, ao que lhe é diferente. As formas mais comuns de preconceito são: social, "racial" e "sexual".

De modo geral, o ponto de partida do preconceito é uma generalização superficial, chamada "estereótipo". Exemplos: "todos os alemães são prepotentes", "os americanos formaram grandes grupos arrogantes", "todos os ingleses são frios". Observar características comuns a grupos são consideradas preconceituosas quando entrarem para o campo da agressividade ou da discriminação, caso contrário reparar em características sociais, culturais ou mesmo de ordem física por si só não representam preconceito, elas podem estar denotando apenas costumes, modos de determinados grupos ou mesmo a aparência de povos de determinadas regiões, pura e simplesmente como forma ilustrativa ou educativa.

Observa-se então que, pela superficialidade ou pela estereotipia, o preconceito é umerro. Entretanto, trata-se de um erro que faz parte do domínio da crença, não do conhecimento, ou seja ele tem uma base irracional e por isso escapa a qualquer questionamento fundamentado num argumento ou raciocínio.

Os sentimentos negativos em relação a um grupo fundamentam a questão afetiva do preconceito, e as ações, o fator comportamental. Segundo Max Weber (1864-1920), o indivíduo é responsável pelas ações que toma. Uma atitude hostil, negativa ou agressiva em relação a um determinado grupo, pode ser classificada como preconceito. Enfim, não ter preconceito é possuir a Lei de Mendel.

quarta-feira, novembro 08, 2017

O contracheque de meio milhão

O contracheque do juiz Mirko Vincenzo Giannotte, da 6ª Vara de Sinop, no Mato Grosso, tornou-se um símbolo dos privilégios concedidos à elite do funcionalismo público. Como revelou o jornal O Estado de S.Paulo, Giannotte recebeu em julho a fábula de R$ 503.928,79. Isso mesmo: meio milhão de reais entre salários e penduricalhos garantidos por lei. Isso mesmo: garantidos por lei.

“Estou dentro da lei e estava recebendo a menos. Cumpro a lei e quero que cumpram comigo”, disse Giannotte ao jornal O Globo. Mas como? Não existe um teto salarial do funcionalismo público? Que tipo de justificativa pode ser usada para pagamento tão absurdo?
O artigo 37 da Constituição, inciso XI, é explícito: “A remuneração e o subsídio dos ocupantes de cargos, funções e empregos públicos da administração direta e autárquica e funcional, dos membros de qualquer dos poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios e dos detentores de mandato eletivo não poderão exceder o subsídio mensal em espécie dos ministros do Supremo Tribunal Federal” (hoje de R$ 33.763,00).
Mas o caso de Giannote está longe de ser o único. Só em Mato Grosso, o Tribunal de Justiça (TJ-MT) pagou em julho uma remuneração superior a R$ 100 mil a ele e a 84 outros magistrados. Os pagamentos, relativos a substituições entre 2005 e 2009, algumas alegadamente sob situação de insalubridade, foram suspensos ontem pela corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O TJ-MT os justificava amparado numa decisão do início do ano sobre um caso semelhante. A corregedoria negou a autorização.

Mesmo que o pagamento aos juízes mato-grossenses não seja recorrente, ele revela o tipo de artimanha usada para driblar o teto constitucional. Basta considerar que o dinheiro não corresponde a “remuneração”. Todo tipo de pagamento adicional é considerado “verba indenizatória”: auxílio moradia, auxílio-paletó, carro oficial, verba de combustível, abonos etc. Instaurou-se no país a cultura do penduricalho.
Tente convencer o presidente de uma empresa privada a pagar mais a seus funcionários com base nessa lógica abstrusa e será na certa enxotado. Pois, no estado brasileiro, os tais penduricalhos vicejam como o musgo nas pedras à beira das cachoeiras – um musgo verde e escorregadio. É preciso fazer secar a fonte.
O Judiciário e o Ministério Público são as corporações mais limosas. Prova da incompetência do nosso governo para lidar com o peso da máquina pública é a inexistência de um levantamento completo sobre essas distorções nos três poderes e seu impacto orçamentário. O governo se beneficiaria muito disso na hora de convencer a população da necessidade de reformas como a previdenciária, cujo objetivo não é (ou não deveria ser) reduzir benefícios aos pobres, mas acabar com privilégios como os de Gallotte.
Alguns indícios revelam que a extensão do problema é bem maior do que se pode imaginar. A tese de doutorado apresentada no início do ano pela pesquisadora Luciana Zaffalon Cardoso na Fundação Getúlio Vargas-SP fez um levantamento da situação no estado de São Paulo. Entre janeiro de 2011 e junho de 2016, a Assembleia Legislativa paulista aprovou 32 leis relativas ao sistema de Justiça. Apenas 17% não tinham impacto pecuniário nenhum; 47% dispunham explicitamente sobre questões remuneratórias e vantagens.
Em 2015, último ano para o qual havia dados disponíveis, 1.860 dos 1.920 procuradores do estado receberam acima do teto constitucional, 6% mais que o dobro. “O rendimento médio mensal dos membros da carreira do Ministério Público em 2015 foi de R$ 46.036,30, sem contabilizar 13.° salário e férias”, afirma a tese de Luciana. Na defensoria pública, a extensão do problema é menor. Apenas 12 dos 716 registros levantados tinham rendimento mensal médio acima do teto. A média foi de R$ 26.980,00.

A opacidade da magistratura impediu que Luciana realizasse um levantamento detalhado para o salário de juízes e desembargadores. Ela recebeu do TJ-SP apenas um arquivo com mais de 200 páginas, em formato incompatível com qualquer software de conversão para planilhas. “Assim como não foi possível observar a estrutura remuneratória da magistratura paulista ou aferir os valores pagos aos seus membros, também não foi possível compreender quais os complementos remuneratórios percebidos por eles”, escreveu ela.
Com base no relatório anual do CNJ, ela verificou que a despesa média mensal com juízes paulistas é de R$ 45.906,00, também acima do teto constitucional. “Não é possível compreender como esses valores são compostos, como são distribuídos por tipo de recebimento e qual o percentual destinado aos recebimentos para além do subsídio”, diz.
É escandaloso que o país não disponha de um levantamento público completo sobre a remuneração do funcionalismo – e os casos em que ela extrapola o teto. O Supremo Tribunal Federal (STF) foi cristalino ao decidir por unanimidade, em 2015, que o teto constitucional deve ser aplicado sobre o valor bruto da remuneração. Seria preciso também incluir dele todo tipo de verba indenizatória, para acabar com os abusos e penduricalhos.

“Todo penduricalho é inconstitucional”, disse ontem o ministro Gilmar Mendes. “Precisamos pôr ordem nesse caos.” Gilmar tem toda razão. Um bom começo seria o próprio STF, onde sete dos onze ministros receberam em julho acima do teto (R$ 37.476,93), graças a um “abono de permanência”.

A terra dos super-ricos: quem são, de onde vieram e para onde vão

Quem escapa do "leão"? O topo da pirâmide, o grupo que tem renda mensal superior a 160 salários mínimos (R$ 126 mil). Em 2013, desses 72 mil super-ricos brasileiros, 52 mil receberam lucros e dividendos - rendimentos isentos. 2/3 do que eles ganham sequer é taxado. São vacinados contra imposto. Em 2013, do total de rendimentos desses ricaços, apenas 35% foram tributados pelo Imposto de Renda de Pessoa Física. Na faixa dos que recebem de 3 a 5 salários mínimos, por exemplo, mais de 90% da renda foi alvo de pagamento de imposto. Em resumo: a lei decidiu que salário de trabalhador paga imposto, lucro do bilionário não.

Faz alguns anos, a Receita Federal divulga os grandes números das declarações de renda. Neste ano, divulgou dados que nunca divulgara. E com isso ficamos sabendo, número por número, coisas estarrecedoras que só podíamos deduzir, observando o comportamento de nossos ricaços. Veja alguns destaques:

Quantas pessoas físicas fazem declaração?

Quase 27 milhões.

Qual é o “andar de baixo”?

Os 13,5 milhões que ganham até 5 salários mínimos. Se deixassem de pagar IR, a perda seria de mais ou menos 1% do total arrecadado pela receita. Só. E gastariam esse dinheiro, provavelmente, em alimento, roupa, escola, algum “luxo popular”.

Quais são os andares de cima?

São três andares:

1. Os que ganham entre 20 e 40 salários mínimos. Correspondem a mais ou menos 1% da população economicamente ativa. Podem ter algum luxo, pelos padrões brasileiros. Mas pagam bastante imposto.

2. Tem um andar mais alto. Os que ganham entre 40 e 160 SM representam mais ou menos 0,5% da população ativa. Já sobra algum para comprar deputados (ou juízes).

3. E tem um andar “de cobertura”, o andar da diretoria, da chefia. A nata. A faixa dos que estão acima dos 160 SM por mês. São 71.440 pessoas, que absorveram R$ 298 bilhões em 2013, o que correspondia a 14% da renda total das declarações. A renda anual média individual desse grupo foi de mais de R$ 4 milhões. Eles representam apenas 0,05% da população economicamente ativa e 0,3% dos declarantes do imposto de renda. Esse estrato possui um patrimônio de R$ 1,2 trilhão, 22,7% de toda a riqueza declarada por todos os contribuintes em bens e ativos financeiros. Pode estar certo de que são estes que decidem quem deve ter campanha financiada. Podem comprar candidatos e, também, claro, sentenças de juízes.

Quem sustenta o circo? Quem mais paga IR?

A faixa que mais paga é a do declarante com renda entre 20 e 40 salários mínimos, que se pode chamar de classe média ou classe média alta.

Quem escapa do leão?

O topo da pirâmide, o grupo que tem renda mensal superior a 160 salários mínimos (R$ 126 mil). As classes média e média alta pagam mais IR do que os verdadeiramente ricos.

Em 2013, desses 72 mil super-ricos brasileiros, 52 mil receberam lucros e dividendos – rendimentos isentos. Dois terços do que eles ganham sequer é taxado. São vacinados contra imposto. Tudo na lei, acredite. A maior parte do rendimento desses ricos é classificada como não tributado ou com tributação exclusiva, isto é tributado apenas com o percentual da fonte, como os rendimentos de aplicações financeiras.

Em 2013, do total de rendimentos desses ricaços, apenas 35% foram tributados pelo Imposto de renda pessoa física. Na faixa dos que recebem de 3 a 5 salários, por exemplo, mais de 90% da renda foi alvo de pagamento de imposto. Em resumo: a lei decidiu que salário do trabalhador paga imposto, lucro do bilionário não paga.

O que isso exige da ação política?

Quando a classe trabalhadora e suas organizações se enfraquecem, burocratizam ou recuam, deixam a ideologia e os sentimentos da classe média sob o comando da classe capitalista. Mais ainda, da sua ala mais reacionária. Pior ainda: a direita conquista até mesmo o coração dos trabalhadores que são tentados a se imaginar como “classe média”.

Na história do século 20, o resultado disso foi a experiência do fascismo, em suas múltiplas formas e aparições.

Nos últimos anos, os bilionários brasileiros e seus cães de guarda na mídia perceberam que podiam conquistar o ressentimento da classe média para jogá-la contra os pobres, os nordestinos, os negros, tudo, enfim, que se aproximasse dos grupos sociais que fossem alvo de políticas compensatórias, de redistribuição. E contra governos e partidos que tomassem essa causa.

E a esquerda, de certo modo, assistiu a essa conquista ideológica sem ter resposta. Uma resposta política: a criação de movimentos reformadores que fizessem o movimento inverso, isto é, colocassem essa classe média contra os altos andares da riqueza. Nós não soubemos fazer isso. Talvez pior: acho que nem tentamos fazer isso.

Aparece agora essa urgente necessidade e a providência divina, travestida de Receita Federal, nos traz uma nova chance.

Já sabíamos que os brasileiros mais pobres pagam mais impostos, diretos e indiretos, do que os brasileiros mais ricos. Sabemos que todos pagamos imposto sobre propriedade territorial urbana – o famoso IPTU. E conhecemos o estardalhaço que surge quando se fala em taxar mais os imóveis em bairros mais ricos.

Mas sabemos coisa pior: grandes proprietários de imóveis rurais não pagam quase nada. Sobre isso não tem estardalhaço. É assim: se você, membro da “classe média empreendedora” passeante da Avenida Paulista, tem uma loja, oficina ou restaurante de self service, paga um belo IPTU. Se você fosse um grande proprietário rural (como os bancos e as empresas de comunicação), seu mar de terras com uma dúzia de vacas não pagaria ITR. Ah, sim, teria crédito barato.

Tudo isso já é mais ou menos sabido e merece reforma. Mas ainda mais chocante é o que se chama de “imposto progressivo sobre a renda”, que agora sabemos que é ainda menos progressivo do que imaginávamos.

Faz algum tempo escrevi um artigo dizendo que a Receita Federal deveria concentrar sua fiscalização na última faixa dos declarantes pessoa física, responsável por 90% do IR. Se o resto simplesmente deixar de pagar não vai fazer tanta diferença. Além disso, a faixa mais alta é aquela que menos recolhe na fonte e a que mais tem “rendimentos não tributáveis” e de “tributação exclusiva”, isto é, rendimentos derivados de investimentos, não de pagamento do trabalho.

Fui injusto ou impreciso, moderado demais. A Receita e os legisladores podem economizar mais tempo do que eu supunha. Basta que prestem atenção em 100 mil contribuintes, do total de 26 milhões. Essa é a mina. Se conseguir que eles paguem o que devem e se conseguir que eles percam as isenções escandalosas que têm, posso apostar que teremos mais dinheiro do que os ajustes desastrados e recessivos do senhor ministro da Fazenda.

O que isso significa para o que chamamos de esquerda – partidos, sindicatos, movimentos sociais? Sugiro pensar em um movimento unificado com uma bandeira simples: que esses 100 mil ricaços paguem mais impostos e que deem sua “contribuição solidária” para reduzir a carga fiscal de quem trabalha. É preciso traduzir essa ideia numa palavra de ordem clara, curta e precisa, mobilizadora. E traduzi-la numa proposta simples e clara de reforma, cobrada do governo e do Congresso. A ideia é simples: isenção para os pobres, redução para a classe média, mais impostos para os ricaços.

Talvez essa seja uma boa ideia para fazer com que a “classe média” que atira nos pobres passe a pensar melhor em quem deve ser o alvo da ira santa. Afinal, milhares e milhares de pagadores de impostos foram para as ruas, raivosos, em agosto, enquanto os nababos que de fato os comandam ficavam em seus retiros bebendo champanhe subsidiada.

Os passeadores da Avenida Paulista são figurantes da peça, eles não sabem das coisas – os roteiristas e produtores nem deram as caras.

Em que rumo os partidos e movimentos populares devem exigir mudanças?

1. É justo e perfeitamente possível isentar todo aquele que ganha até 10 salários mínimos. Não abala a arrecadação se cobrar um pouco mais dos de cima.

2. É necessário e legítimo criar faixas mais pesadas para os andares mais altos. Mas não é suficiente.

3. É preciso mudar as regras que permitem isenção e desconto para lucros e dividendos.

4. É preciso e é legítimo mudar as regras para os pagamentos disfarçados, não tributáveis, em “benefícios indiretos”. A regra tem sido um meio de burlar a taxação.

5. É preciso e é legítimo mudar as regras de imposto sobre a propriedade territorial. A classe média estrila com o IPTU. Mas deveria é exigir cobrança do ITR.

6. É preciso ter um imposto sobre heranças. Com isenção para pequenos valores e tabela progressiva.




Por Reginaldo Moraes

terça-feira, novembro 07, 2017

4 ideias de Karl Marx que seguem vivas

Autor de 'O Manifesto Comunista' e 'O Capital' inspirou Revolução Russa, cujo centenário é marcado neste dia 7 de novembro, e movimentos sociais em vários cantos no século 20; mas e seu legado hoje?





Malafaia e a "cura gay"

Eu quero apresentar um aspecto bem menos moral e mais pragmático da questão da “cura gay”. Chama “follow the money“. O Pastor Malafaia tem um escudeiro na Câmara: o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ). Isso nem é segredo.

A coitadinha da psicóloga que entrou com a ação pela “cura gay” não é só psicóloga: é assessora do deputado Sóstenes.

Agora vamos fazer uma breve cronologia:
2011 – Malafaia investe numa rede de clínicas de recuperação;
2012 – Silas Malafaia investe mais ainda em clínicas de recuperação;
2013 – Marco Feliciano (PSC-SP) entra na chefia da Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara (meu Deus do céu, PT…) e por pedido de Malafaia aprova o projeto da cura gay. Sim, foi NO MEIO daquela bagunça das manifestações;
2014 – Pr. Eurico (PHS-PE), outro da bancada jihadista evangélica, reapresenta o projeto da cura gay;
2015 – com Cunha presidente da Câmara, Marco Feliciano reapresenta DE NOVO o projeto da cura gay.

Depois de terem o mesmo projeto arquivado três vezes, a bancada evangélica decidiu que o jeito seria apelar pro Judiciário. E daí finalmente acharam um juiz que fosse conservador o suficiente pra tomar uma decisão que os agradasse

Bem, mas o que isso tem a ver com as clínicas de recuperação do Malafaia? É relativamente simples:
Vocês lembram no começo do ano quando o Dória queria levar a Cracolândia inteira pra clínicas de recuperação pagando diária para as clínicas? Isso geralmente ocorre com o conveniamento de clínicas para recuperação de dependentes junto à prefeitura ou ao estado. A clínica apresenta documentação, é conveniada e o estado paga mensalmente a quantidade de diárias de internação estabelecidas em contrato.

Na hora de credenciar essas clínicas, quem estará lá todo feliz credenciando suas clínicas em busca de grana pública pra cura gay?Pois bem, qual é o pulo do gato? Com a cura gay, pessoas poderão ser levadas pelos pais ou parentes num Centro de Referência de Assistência Social (Cras) ou num Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) buscando tratamento de reversão sexual. Daí o governo vai ter que credenciar clínicas que façam esses tratamentos, afinal é um direito de todos e dever do Estado.
 

SILAS MALAFAIA

Não é coincidência que o lobby pela cura gay tenha começado logo após Malafaia montar a sua rede de clínicas de recuperação.
Vocês entenderam que Malafaia é muito mais perigoso que um mero pastor extremista? Ele quer usar a cura gay para captar dinheiro público. Por trás de todo moralismo há um motivo tacanho e hipócrita, não adianta. O do Malafaia é ganhar mais dinheiro.
Jesus: “é impossível servir a Deus e ao dinheiro”.
Paulo: “O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”.
Esses trechos da Bíblia Malafaia não lê
Enfim, tá aí o esquema exposto.
 
* Leonardo Rossetto é cientista social, mestre em Planejamento Territorial e especialista em Políticas Públicas. Define-se como cristão.

segunda-feira, novembro 06, 2017

“Gilmar conversou com Aécio no dia em que deu decisão favorável a ele”

O ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), conversou com o senador Aécio Neves (PSDB-MG) no dia 25 de abril de 2017, quando deu decisão favorável ao tucano para que ele não precisasse prestar depoimento à Polícia Federal em um dos inquéritos da Lava Jato. A informação consta de relatório da PF incluído em uma das ações que tramitam no tribunal. O documento, datado de 15 de agosto de 2017, não está sob sigilo na corte. No total, considerando dois celulares de Aécio e em dois períodos diferentes, há o registro de 46 ligações por meio de WhatsApp entre eles. O conteúdo das conversas é desconhecido. A PF fez uma análise dos telefones de Aécio apreendidos em 18 de maio, na operação Patmos. Naquele dia, os agentes cumpriram mandados de busca e apreensão na casa do tucano. Em um dos aparelhos estão registradas 38 chamadas entre os dias 16 de março e 13 de maio de 2017. Aécio ligou 25 vezes para Gilmar. Destas, conseguiram se falar 12 vezes – as chamadas duraram entre dois segundos e oito minutos e 34 segundos. Há registro de sete ligações perdidas de Gilmar para Aécio. Além disso, em outras seis ocasiões, o ministro telefonou e conseguiu falar com o senador – as conversas duraram entre 24 segundos e três minutos e 54 segundos.


terça-feira, dezembro 06, 2016

João Belchior Marques Goulart morreu há 40 anos, em 6 de dezembro de 1976.

Com apenas 34 anos, João Goulart assume o relevante à época Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, em junho de 1953, no governo Getúlio Vargas, e passa a receber em seu gabinete pessoas humildes e sindicalistas, muitos deles negros. A reação foi imediata: empresários, militares e imprensa passam a orquestrar uma verdadeira campanha para derrubá-lo.

O mandato de Jango como ministro durou apenas 8 meses e mostrou como a proximidade de trabalhadores à esfera do poder politico incomoda uma camada de privilegiados que enxerga o Estado como sua propriedade. Hoje o duro enfrentamento que veio à tona a poucos dias do segundo turno da eleição presidencial demonstra, apesar de nosso considerável amadurecimento democrático das últimas duas décadas, como a sociedade brasileira ainda não equalizou muitas de suas contradições.

A oposição a Jango ainda está à espreita e metamorfoseou-se em defensora do MERCADO como a tábua de salvação de nossos ainda sérios problemas. Em 1953, a principal proposta de Jango previa aumento que dobrava o salário mínimo para 2.400 cruzeiros. A virulenta reação da oposição, principalmente dos quartéis, assustou o governo. Para evitar riscos ao mandato de Getúlio, seu padrinho político, João Goulart deixa o ministério em fevereiro de 54 e declara: “os trabalhadores podem ficar tranquilos, porque prosseguirei ao lado deles, mudando apenas de trincheira”. Em primeiro de maio (Dia do Trabalho) do mesmo ano, três meses antes do suicídio, Getúlio dobra o salário mínimo.

“Os detratores das classes operárias não compreendem que um ministro de Estado possa falar com espontaneidade e estabelecer laços de afeto com criaturas de condição humilde… enquanto uns estão ameaçados e morrem mesmo de fome, outros ganham num ano aquilo que normalmente deveriam ganhar em 50 anos e até mesmo em um século” (JANGO)

Jango alterou as relações entre Estado, classe trabalhadora e empresários. Com isso, os coronéis lançaram manifesto contra ele, os empresários enfureceram-se e a imprensa o atacou. Jango enfrentou a acusação da oposição de maquinar, com a ajuda do presidente argentino na época, Juan Domingo Perón, a implantação da República Sindicalista no Brasil.

O jornalista Carlos Lacerda atacava o governo em seu jornal Tribuna da Imprensa. Em surtos de verdadeira psicose, conclamava o Congresso e a opinião pública a reagir contra “a República Sindicalista, a esdrúxula república jangueira, que fará do Sr. Getúlio Vargas, amorfo e dócil homem de quase 80 anos, mal vividos, um ditador que cochila, enquanto Jango age”.

O barão das comunicações e à época senador, Assis Chateaubriand, subiu à tribuna do Congresso e disparou: “o político rio-grandense não faz outra coisa senão desenvolver a mais cruel e atormentada luta de classes até hoje vista. Nem o Partido Comunista já produziu uma campanha de atrito de classes tão perfeita, com o colorido que o Sr. Goulart tem desenvolvido”.

Em pouco tempo no ministério, Jango conquistou a simpatia dos trabalhadores e passou a mediar inúmeras negociações entre empregados e patrões, o que era inédito na época. Em alguns casos, o ministro até chegava a estimular as mobilizações por melhores condições de trabalho.

Em março de 53, a chamada greve dos 300 mil agitou São Paulo e fez surgir o Pacto de Unidade Intersindical (PUI), organização não alinhada à estrutura sindical pelega, comum à época. Em junho, a greve dos marítimos, inaugurou uma estratégia de negociação entre governo e sindicatos. Ao mesmo tempo, desencadeou o temor de muitos, a começar pelo ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, defensor de uma política de contenção de gastos e crítico de qualquer elevação salarial.

O I Congresso de Previdência Social no Rio de Janeiro reuniu representantes de todo o país e estabeleceu um maior acesso dos sindicatos aos serviços assistenciais da previdência, além de um maior acesso dos sindicalistas (e também dos petebistas, partido de Jango) aos cargos da administração dos inúmeros Institutos de Pensões e Aposentadorias.

A paciência e simplicidade de Goulart davam o tom para longas conversas com diversas lideranças sindicais, empresariais e políticas. Sua jornada estafante de trabalho começava às dez da manhã e terminava no meio da madrugada.

Em outubro de 1953, Jango viajou pelo Norte e Nordeste do país e visitou inúmeros sindicatos. No retorno, 78 sindicatos tinham organizado uma recepção consagradora. Cerca de 4 mil pessoas o esperavam no aeroporto do Rio e o celebraram, Jango teve que subir na capota de um carro para que todos o vissem.

Goulart mostrou indignação com as condições de trabalho daquela região do Brasil e relatou que havia trabalhadores com jornadas de 30 dias por mês, sem um único dia de descanso. Como pagamento, recebiam 10 quilos de farinha ou 15 de carne.

 “Acabo de percorrer vários Estados do Norte e do Nordeste e senti de perto a miséria e as privações dos nossos irmãos daquelas plagas. Ouvi trabalhadores de todas as categorias. Esses trabalhadores que vivem abandonados e sem o mínimo conforto” (Jango)

Apesar dos esforços de Goulart e do governo, a crise econômica e a inflação deflagraram várias greves no segundo semestre de 1953. No congresso, integrantes da bancada da UDN (União Democrática Nacional), partido de oposição, chamada ironicamente de ‘banda de música’, subiam ao palanque inúmeras vezes para atacar o governo de Getúlio Vargas e em particular, Jango. Não resta dúvida de que a atuação de Jango no Ministério aproximou setores reacionários das Forças Armadas à UDN.

O trabalho de Jango no governo colaborou para transformar Getúlio Vargas do ditador do Estado Novo em um líder de massas. Ambos se aproximaram quando Getúlio, após sofrer o golpe de 45, vivia na Estância Itu, a 80 quilômetros de São Borja (RS), terra natal de Getúlio e João Goulart. Isolado, o ex-presidente aproximou-se do jovem político e empresário local, que era amigo do filho de seu filho, Maneco.

Goulart presenteava Getúlio com charutos e ambos conversavam por horas. Nessas conversas, Jango já demonstrava sua preocupação em diminuir a desigualdade social brasileira e a necessidade da reforma agrária. Entre 1947 e 1950, Jango foi um dos mais relevantes articuladores do caminho de retorno de Getúlio à presidência.

Incomensurável a angústia de Jango nos 12 anos de exílio (1964-1976) após o golpe civil-militar de 1964. Nesse período, o presidente deposto flertou com a depressão e manifestava para pessoas mais próximas seu imenso desejo de retornar ao Brasil. Morto em 1976, imagino Jango com o inseparável cigarro entre os dedos alertando pacientemente pela união das forças progressistas através do diálogo nesse embate atual pela presidência do país.

Este texto foi inspirado pela leitura do brilhante livro ’João Goulart, uma biografia’, do historiador e professor da UFF (Universidade Federal Fluminense), Jorge Ferreira, fruto de mais de dez anos de sua pesquisa sobre Jango.





Texto de Fernando do Valle, blogueiro e jornalista, publicado originalmente no ZonaCurva (http://zonacurva.com.br/como-ministro-de-getulio-jango-revelou-entranhas-brasil/)