quinta-feira, agosto 25, 2011

Revolução era religião para Che

Leia a entrevista de John Lee Anderson. Ele nasceu nos Estados Unidos em 1957. Sua especialidade é o jornalismo de guerra, ou o jornalismo, simplesmente. 
Mas vale afirmar que Anderson que não aprecia o rótulo de jornalista de guerra, porque não quer ser confundindo com as legiões de oportunistas que observam uma situação de passagem e correm a se proteger por trás de seus laptops.
"Che tinha muito de aventureiro,
mas era um homem calculista e rigoroso" 

Filho de diplomatas, ele passou parte da infância na Espanha e usa o castelhano com alguma dificuldade, apesar de conhecer muito bem os problemas latino-americanos. Esteve na frente de batalha tanto no Afeganistão quanto no Iraque, como enviado especial da revista New Yorker, da qual é funcionário.
Entrevistou Gabriel García Márquez (de cujas mãos recebeu um prêmio da Fundación para un Nuevo Periodismo, criada pelos escritor), Fidel Castro, Charles Taylor (ex-ditador da Libéria), Augusto Pinochet, Saddam Hussein e Hugo Chávez. Escreve regularmente para a revista Letras Libres, do diário espanhol El País, para os jornais Guardian e Le Monde, e para as revistas Time e Harper's Bazaar.
É autor dos livros "Inside the Liga" (1986), "Zonas de Guerra: voces de los campos de matanza del mundo (1987), "Guerrillas" (1992), "Che Guevara: Uma Vida Revolucionária" (1997), "La Tumba del León: partes de guerra desde Afeganistán" (2002) e "La Caída de Bagdad" (2004). A seguir a conversação que manteve com Terra Magazine.


Que opinião merece a reunião entre Fidel Castro e o líder soviético Alexei Kosiguin, em maio de 1967, três meses antes do assassinato de Guevara? É possível pensar que Guevara tenha se convertido em incômodo para a estratégia soviética na América Latina e que Fidel mesmo tivesse decidido retirar seu apoio à aventura boliviana?
Jon Lee Anderson - Não tenho idéia sobre o que falaram e nem que importância essa conversa pode ter tido. Dizer alguma coisa seria especular, conjecturar. De qualquer forma, àquela altura havia muito pouco que Fidel pudesse fazer para salvar Che. A expedição dele já estava queimada.


O pintor argentino Ciro Bustos acaba de publicar suas memórias. Ele é franco a ponto da brutalidade. Diz que nem ele nem Régis Debray foram torturados, e que nenhum dos dois denunciou pessoa alguma, já que os militares bolivianos e seus assessores da Agência Central de Inteligência (CIA) norte-americana sabiam perfeitamente do paradeiro de Guevara, e do tempo que precisariam para caçá-lo.
Bem, não existe motivo algum para não acreditar no que Bustos tem a dizer. E, se eles não foram torturados, o que seria novidade, é seguro que tenham passado as primeiras horas de detenção com medo de serem executados.
Bustos não negou ter feito desenhos dos guerrilheiros em seu acampamento, e isso pesa, porque pode ter ajudado os militares a identificar os guerrilheiros depois de capturados. No entanto, o que é absolutamente certo é que os militares bolivianos e seus assessores norte-americanos já haviam montado operações para localizar o grupo (como por fim conseguiram fazer), e dispunham de muitas informações fornecidas pelos camponeses que viviam perto do grupo de Guevara.
Os militares interrogavam os camponeses o tempo todo, e quase sempre faziam idéia mais ou menos precisa da área pela qual o grupo se deslocava; com isso, o cerco foi se apertando.


Houve uma reunião secreta -e mitológica- entre Fidel e Raúl Castro, de um lado, e Guevara, de outro, depois que este voltou da Argélia, onde fizera um discurso incendiário em Argel. Ninguém sabe ao certo o que foi conversado naquele dia. O senhor tem alguma hipótese a respeito?
Sim, mas apenas uma hipótese. Estou quase certo de que, em determinado momento, Castro conversou com Guevara e lhe disse algo como: "Bem, você conseguiu, os soviéticos estão furiosos. Estão me enchendo a paciência. O que devemos fazer, rapaz? Você estragou tudo. O que planeja?" E Guevara, compreendendo o que Fidel estava insinuando, pode ter respondido algo como: "Estou às suas ordens, Fidel. Onde a revolução precisar de mim". Foi aquele o momento, a rigor, em que eles começaram a planejar um foco insurgente no Congo.


O que o senhor pensa sobre a dicotomia entre estímulos morais e estímulos materiais que Guevara imprimiu como princípio de organização e de ação política quando comandou o Ministério da Indústria cubano, tendo em vista os resultados atingidos? Guevara era político, aventureiro ou uma mistura das duas coisas?
A idéia de estímulo moral que Che pregava nos anos 60 perdeu a batalha ideológica na luta pela condução econômica da ilha, encabeçada pelo velho comunista Carlos Rafael Rodríguez, férreo aliado de Raúl Castro. Quando Guevara deixou Cuba, ninguém mais falou muito do assunto - até o período especial dos anos 90, quando Castro retomou o tema - se bem que antes, e por muito tempo, a devoção à causa, o espírito de sacrifício etc. de Guevara tenham sido elogiados da boca para fora.
Mas Castro o fez, àquela altura, para restaurar o espírito socialista em uma população cansada, apática, esfomeada, e a mensagem se dirigia especialmente à juventude. Hoje em dia, existem prêmios concedidos pelo Partido Comunista Cubano, reconhecendo o trabalho adicional ou voluntário, mas a maioria dos cidadãos -e dos dirigentes- compreende que, para avançar sob o sistema atual, convém trabalhar mais.
A desculpa usa as idéias de Guevara, mas combina os estímulos morais e os materiais. Não sei até que ponto essa estratégia pode ser considerada inovadora. Ainda que me incline a pensar que as idéias de Guevara sejam sempre estimulantes como rótulo, a realidade é muito diferente.
Na Cuba contemporânea, muito pouca gente se mexe, a não ser por estímulos materiais. O legado de Che serve à revolução como uma espécie de estandarte, de ideal atingido, uma certa atração que pode ser associada ao socialismo em si. Eu diria que Guevara, evidentemente, tinha espírito aventureiro, o tinha desde moço e nunca o perdeu de todo.
Mas faço essa afirmação com cautela, para que ninguém pense que estou empregando a definição stalinista do termo "aventureiro", porque todas as revoluções são uma aventura incerta até que triunfem, não? Assim, a meu modo de ver, Che tinha muito de aventureiro, mas era um homem calculista e rigoroso.
Quanto à sua capacidade política, de burocrata da política, creio que tenha sido um esforço frustrado. Ele não sabia ser político ou diplomático. Abordava a política - a revolução- de forma religiosa, com espírito mais de santidade que de política.


Na Argentina, foi publicada uma biografia de Guevara na qual o autor, Mario O'Donnell, garante que o comandante da força aérea argentina, ao ser informado de que Guevara visitaria clandestinamente o país para conversar com o então presidente Arturo Frondizi, deu ordens para sua execução, mas a operação fracassou por imperícia ou medo dos encarregados de executá-la. O senhor conhece esse episódio, se é que de fato ocorreu?
A verdade é que ouvi falar disso, mas não disponho de dados suficientes, e nada disso me parece muito confiável. Trata-se de algo que o senhor O'Donnell revelou e continua afirmando. Mas soa um tanto fantástico. Caso tivesse de fato acontecido, teria causado um escândalo inimaginável.
Quem sabe... Os militares argentinos eram capazes de enormes desmandos, mas esse episódio parece um tanto forçado. Por que tomariam tal decisão, uma decisão drástica a esse ponto? Não devemos nos esquecer de que estávamos em 1961, três anos antes que Jorge Masetti tentasse implantar seu foco guerrilheiro na província de Salta, ou seja, bem antes das tentativas de Guevara para mobilizar uma guerrilha na Argentina. Para que matá-lo, nesse caso?
Caso o incidente estivesse ligado à exportação de algum complô de cubanos exilados, a idéia pareceria mais crível, mas não existem traços disso, ou pelo menos eu não disponho de informações sobre eles.

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